(escrito por Marciano)
“OUTRO CARDUME”
1 “Uns o pegam pelas costas
2 no escuro, feito caranguejos.
3 Outros em terra firme
4 para viagem, no gelo.
5 Terceiros o fabricam na mente
6 como, noutros tempos,
7 monstros ultramarinos.
8 Já um quarto tenta apanhá-lo
9 entre duas cidades
10 num ônibus da Cometa
11 quando a linha presa ao dedo
12 mesmo a milhas de distância
13 acusa sua surpresa.
14 Mas tantas vezes
15 é só uma ressaca
16 arrastando pedras
17 no litoral
18 enquanto a Cordilheira
19 às nossas costas
20 ameaça desabar
21 sem dar um sinal.”
Para que o poema “OUTRO CARDUME” seja arpoado, devemos
nos atentar, primeiro, para seu par “O CARDUME”, pois há alguma compatibilidade
de sentidos e chaves de entendimento que só aparecem quando esses poemas são
chocados um contra o outro. Para efeito didático, chamaremos o poema “O
CARDUME” de “poema 2”. Em ambos poemas, o autor usa o mesmo procedimento: dá
uma noção de posição (espacial) do coletivo de peixes e depois recorre a uma
imagem. O eu lírico só aparece no penúltimo dístico (de um total de 7) como um
observador da “mancha do cardume na simples correnteza”, da mesma forma, o Eu
lírico do poema Outro Cardume só se enuncia nos últimos versos.
Até chegar nesses dois poemas, o livro cria uma
espécie de narrativa, em que são expostas, a história da Baixada Santista, em
poemas e xilogravuras sob um olhar único, em que memória e ambiente são
tratados de vários ângulos diferentes simultaneamente. Alguns poemas fazem
referência a histórias que escreveram sobre o litoral paulista. O aspecto
multifacetado do mundo se evidência facilmente no poema “Em Torno da Cidade”,
dividido em 9 partes, marcadas pelas visões diferentes espacial e temporalmente.
As xilogravuras possuem forte influência do porto de Santos: são representações
do litoral, do mar, dos navios, guindastes e carregamentos, há elementos que
são suspensos sobre a água, essa que parece ser o único elemento representado
na primeira gravura do livro - uma espécie de caos ante o que faz contato
direto, o que está na costa e com os objetos que passam (cargas de navios e
guindastes) suspensos sobre a água. Tais objetos são meticulosamente
geométricos nas xilogravuras.
Retornemos agora ao poema alvo. “OUTRO CARDUME” é composto
por uma única estrofe, de 5 frases. O próprio poema é uma espécie de coletivo
de palavras, unidas sob a forma do texto. No poema 2, a diferença na disposição
dos versos implica numa distribuição, num espalhamento do cardume -ele está
passando em vários lugares, em várias estrofes. Cada poema expõe a configuração
dos versos de acordo com a representação dos peixes: no poema 2, há sempre uma
noção de que esse coletivo está em movimento, imerso numa espécie de correnteza
–no mar e na imagem poética sobre a mancha do cardume (“A maioria, porém, passa
em segredo/ como passa agora// em torno desta mesa.”); em “OUTRO CARDUME”,
temos uma distanciação do mar (não estritamente no sentido espacial): em cada
uma das 5 frases, os peixes são “pegos”. Essa construção de sentido se dá
também pelos campos semânticos de cada frase, pela sonoridade e pelo tamanho de
cada uma.
Antes de
analisarmos como se constrói essa captura de cardumes e seu aparecimento na
superfície, precisamos pensar o oceano, a terra firme e os peixes no contexto
do livro. A primeira estrofe do poema “FALA
DE CUNHAMBEBE” é “eu como peixe/ como/ meu avô-barriga-de-peixe”, sobre
esse poema escreve Fabiane Borsato em “MEMÓRIA E METALINGUAGEM EM CAIS, DE
ALBERTO MARTINS”:
A
ambiguidade do termo como, empregado tanto na acepção de conjunção
comparativa, quanto na primeira pessoa do singular do verbo comer no presente do indicativo, desenvolve
relações metonímicas em que cada elemento compõe o outro e vice-versa.
Cunhambebe foi um líder tupinambá, sobre o qual Hans
Staden escreveu que devorara mais de 60 portugueses. O eu lírico surge pela voz
de um canibal, de forma que se arquiteta essa relação metonímica entre homem e
peixe e um devora o outro. Em poemas como “O ANTÍPODA” e “O CARDUME” há um
distanciamento, como se os peixes estivessem por aí em conjunto, e fossem
poesia, donde vem o
poeta: ele a ingere, torna-se ele mesmo poesia, e a poesia se torna ele. Para
chegar a esse símbolo devemos ir à terra firme (ou superfície) e suas
representações, de forma que o compreendamos.
Partindo
dessa conclusão até chegarmos aos argumentos que a justificam e a atingem,
teremos chaves de interpretação para o que está dentro e o que está fora do
mar. O que se apresenta na superfície (fora do mar) quase sempre é algo tirado da
água por força humana ou da maré. Atentemo-nos aos versos: “sei que não há nada
como o sol/ tragando outros peixes/ pro horror da superfície”, e ao: “quero
morrer nessas águas”, ambos de “FALA DE CUNHAMBEBE”. A terra, o mundo em que
vivem os humanos, é um ambiente hostil à poesia, mais ainda, quando, de acordo
com os poemas, se tira a poesia da natureza, desentranhando-a, o objeto que
sobra nem sempre se sustenta, pode ser esmagado, afinal, como é enunciado em “O
ANTÍPODA”: o homem está na superfície e o peixe sob uma imensa massa de água;
ambos só podem respirar onde estão. A imagem formada pelas ideias de ser humano,
peixe e poesia se misturando, ante a aridez da praia, é um começo para
circundarmos o que é a “ameaça da Cordilheira”, dos versos finais de “OUTRO
CARDUME”.
Para
melhor atingirmos tais versos, devemos cerrar o olhar sobre anteriores,
analisando os aspectos das diferentes aparições do cardume no poema, na ordem
em que elas se apresentam. Os primeiros dois versos podem remeter à um peixe
sendo arpoado, ainda na água, e mesmo que essa conclusão talvez seja demasiado
criativa, o “escuro” no qual se encontrava o cardume provoca uma sensação de
algo escondido ou debaixo d’ água. Os versos 3 e 4 já apresentam essas
criaturas “em terra firme”; foram pegos, postos “no gelo”. Ainda de alguma
forma estão em contato com água e escondidos, guardados “para viagem”. Na
próxima frase, a noção espacial (utilizada nos versos anteriores) dá lugar à
noção de mente e de memória, o cardume é “fabricado” “como, noutros tempos, /
monstros ultramarinos.”. Estes versos possuem um ranço mítico, da poesia que
não era escrita, da tradição oral, com a qual o poeta (de várias partes e
tradições do mundo) contava sobre monstros no mar. A terceira frase (dos versos
8 ao 13) compõe uma imagem, e assim como no resto do poema, o conceito de
cardume não é enunciado por essa palavra que o nomeia, mas por um pronome
oblíquo, sempre objeto do verbo. Tal coletivo não pratica qualquer ação, ao
contrário, é servo e anteparo (mesmo fazendo parte do próprio sujeito que o
caça e o ingere), subjugado à ação de um sujeito, ainda indefinido.
Essa parece ser a
imagem mais dissonante no poema. A localização (“entre duas cidades”) engendra,
espacialmente, distância do mar, e casualidade, banalidade (“ônibus da
Cometa”). Entretanto, cometas são raros e, quando atravessam o espaço, quando se
tornam visíveis, causam espanto. Eles passam muito longe do mar, distantes da
correnteza, longe de todos os entes dessa poesia. Avançando, notamos que,
dentro da imagem, há, nos versos 11 e 12, a ligação entre sujeito, pela “linha
presa ao dedo”, a algo não enunciado, que remete a pesca. Ambos versos tem
ritmo igual ( _ _ ´_ _ _ ´ ), as
palavras “linha” e “milhas” estão na mesma posição e cumprem o mesmo papel
rítmico, ambas são antecedidas por um “a”, gerando uma harmonia imitativa do
movimento do veículo com essa repetição rítmica. No verso seguinte, o andamento
é quebrado: há “surpresa”. As assonâncias de /a/ e /u/ e a repetição das
fricativas alveolares /s/ e /z/, além da mudança nos acentos tônicos e na
métrica provocam sensação de mudança; o verso é: “acusa sua surpresa”. Dentro
desses sentidos que “cometa” produz, o cardume, a poesia, e o próprio poeta são
como que fisgados “mesmo a milhas de distância”.
Seguindo a ordem
dos versos, a última frase se apresenta. Podemos dividi-la em duas partes, cada
uma de quatro versos (do 14 ao 17 e do 18 ao 21), porque são duas ações, postas
juntas com uma conjunção indicativa de simultaneidade (“enquanto”). A primeira
parte é iniciada pela conjunção adversativa “mas”, contrapondo a imagem
anterior à descrição seguinte: uma ressaca trazendo pedras para a praia. Por
conta dessa dialética é que depreendemos que as pedras são metáforas para
poemas que não vingam; eles até surgem, saem do mar, local representativo donde
a poesia está, submersa; porém não são cardumes. Os últimos quatro versos
trazem a ideia da Cordilheira – agora melhor circundada – mas ainda não
decifrada. Não podemos precisar, sem analisar mais a fundo o livro todo, se a
“Cordilheira” teria ligação com a serra do mar, ou com a Cordilheira dos Andes,
apenas podemos observar que há constante perigo de esmagamento – de um
esmagamento que não dá sinais. No verso 19, o eu lírico aparece, sob a forma da
primeira pessoa do plural, e cria-se uma dialogia com o leitor, pois este está
lendo -“comendo”- a mesma poesia que “já foi comida” (e incorporada), ou seja,
surge uma espécie de simbiose entre escritor, poema e leitor.
As múltiplas
visões donde surgem os poemas de Cais não são separadas temporal e
espacialmente de forma delineada: o passado invade o presente; a ausência e a
presença se fazem unas sob a memória e a realidade; leitor, escritor e poesia
se tocam numa ingestão mútua. Assim, o poema “OUTRO CARDUME” se constrói, entre
a caça da poesia e o constante perigo de tê-la, escrita.
REFERÊNCIAS
MARTINS, A. Cais.
São Paulo: Ed. 34, 2002.
"DUAS
Viagens ao Brasil" de Hans Staden (1557) Disponível em: www.bibvirt.futuro.usp.br
Borsato,
Fabiane Renata. Memória e metalinguagem em cais, de Alberto Martins. Texto
Poético, v. 9, p. 1-13, 2010. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/124945>.