sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Pequeno ensaio sobre o poema “OUTRO CARDUME”, de Alberto Martins

 (escrito por Marciano)

“OUTRO CARDUME”

1   “Uns o pegam pelas costas
2    no escuro, feito caranguejos.
3    Outros em terra firme
4    para viagem, no gelo.
5    Terceiros o fabricam na mente
6    como, noutros tempos,
7    monstros ultramarinos.
8    Já um quarto tenta apanhá-lo
9    entre duas cidades
10   num ônibus da Cometa
11   quando a linha presa ao dedo
12   mesmo a milhas de distância
13   acusa sua surpresa.
14   Mas tantas vezes
15   é só uma ressaca
16  arrastando pedras
17  no litoral
18  enquanto a Cordilheira
19  às nossas costas
20  ameaça desabar
21  sem dar um sinal.”

Para que o poema “OUTRO CARDUME” seja arpoado, devemos nos atentar, primeiro, para seu par “O CARDUME”, pois há alguma compatibilidade de sentidos e chaves de entendimento que só aparecem quando esses poemas são chocados um contra o outro. Para efeito didático, chamaremos o poema “O CARDUME” de “poema 2”. Em ambos poemas, o autor usa o mesmo procedimento: dá uma noção de posição (espacial) do coletivo de peixes e depois recorre a uma imagem. O eu lírico só aparece no penúltimo dístico (de um total de 7) como um observador da “mancha do cardume na simples correnteza”, da mesma forma, o Eu lírico do poema Outro Cardume só se enuncia nos últimos versos.
Até chegar nesses dois poemas, o livro cria uma espécie de narrativa, em que são expostas, a história da Baixada Santista, em poemas e xilogravuras sob um olhar único, em que memória e ambiente são tratados de vários ângulos diferentes simultaneamente. Alguns poemas fazem referência a histórias que escreveram sobre o litoral paulista. O aspecto multifacetado do mundo se evidência facilmente no poema “Em Torno da Cidade”, dividido em 9 partes, marcadas pelas visões diferentes espacial e temporalmente. As xilogravuras possuem forte influência do porto de Santos: são representações do litoral, do mar, dos navios, guindastes e carregamentos, há elementos que são suspensos sobre a água, essa que parece ser o único elemento representado na primeira gravura do livro - uma espécie de caos ante o que faz contato direto, o que está na costa e com os objetos que passam (cargas de navios e guindastes) suspensos sobre a água. Tais objetos são meticulosamente geométricos nas xilogravuras.
Retornemos agora ao poema alvo. “OUTRO CARDUME” é composto por uma única estrofe, de 5 frases. O próprio poema é uma espécie de coletivo de palavras, unidas sob a forma do texto. No poema 2, a diferença na disposição dos versos implica numa distribuição, num espalhamento do cardume -ele está passando em vários lugares, em várias estrofes. Cada poema expõe a configuração dos versos de acordo com a representação dos peixes: no poema 2, há sempre uma noção de que esse coletivo está em movimento, imerso numa espécie de correnteza –no mar e na imagem poética sobre a mancha do cardume (“A maioria, porém, passa em segredo/ como passa agora// em torno desta mesa.”); em “OUTRO CARDUME”, temos uma distanciação do mar (não estritamente no sentido espacial): em cada uma das 5 frases, os peixes são “pegos”. Essa construção de sentido se dá também pelos campos semânticos de cada frase, pela sonoridade e pelo tamanho de cada uma.
Antes de analisarmos como se constrói essa captura de cardumes e seu aparecimento na superfície, precisamos pensar o oceano, a terra firme e os peixes no contexto do livro. A primeira estrofe do poema “FALA DE CUNHAMBEBE” é “eu como peixe/ como/ meu avô-barriga-de-peixe”, sobre esse poema escreve Fabiane Borsato em “MEMÓRIA E METALINGUAGEM EM CAIS, DE ALBERTO MARTINS”:
A ambiguidade do termo como, empregado tanto na acepção de conjunção comparativa, quanto na primeira pessoa do singular do verbo comer no presente do indicativo, desenvolve relações metonímicas em que cada elemento compõe o outro e vice-versa.

Cunhambebe foi um líder tupinambá, sobre o qual Hans Staden escreveu que devorara mais de 60 portugueses. O eu lírico surge pela voz de um canibal, de forma que se arquiteta essa relação metonímica entre homem e peixe e um devora o outro. Em poemas como “O ANTÍPODA” e “O CARDUME” há um distanciamento, como se os peixes estivessem por aí em conjunto, e fossem poesia, donde vem o poeta: ele a ingere, torna-se ele mesmo poesia, e a poesia se torna ele. Para chegar a esse símbolo devemos ir à terra firme (ou superfície) e suas representações, de forma que o compreendamos.
            Partindo dessa conclusão até chegarmos aos argumentos que a justificam e a atingem, teremos chaves de interpretação para o que está dentro e o que está fora do mar. O que se apresenta na superfície (fora do mar) quase sempre é algo tirado da água por força humana ou da maré. Atentemo-nos aos versos: “sei que não há nada como o sol/ tragando outros peixes/ pro horror da superfície”, e ao: “quero morrer nessas águas”, ambos de “FALA DE CUNHAMBEBE”. A terra, o mundo em que vivem os humanos, é um ambiente hostil à poesia, mais ainda, quando, de acordo com os poemas, se tira a poesia da natureza, desentranhando-a, o objeto que sobra nem sempre se sustenta, pode ser esmagado, afinal, como é enunciado em “O ANTÍPODA”: o homem está na superfície e o peixe sob uma imensa massa de água; ambos só podem respirar onde estão. A imagem formada pelas ideias de ser humano, peixe e poesia se misturando, ante a aridez da praia, é um começo para circundarmos o que é a “ameaça da Cordilheira”, dos versos finais de “OUTRO CARDUME”.
            Para melhor atingirmos tais versos, devemos cerrar o olhar sobre anteriores, analisando os aspectos das diferentes aparições do cardume no poema, na ordem em que elas se apresentam. Os primeiros dois versos podem remeter à um peixe sendo arpoado, ainda na água, e mesmo que essa conclusão talvez seja demasiado criativa, o “escuro” no qual se encontrava o cardume provoca uma sensação de algo escondido ou debaixo d’ água. Os versos 3 e 4 já apresentam essas criaturas “em terra firme”; foram pegos, postos “no gelo”. Ainda de alguma forma estão em contato com água e escondidos, guardados “para viagem”. Na próxima frase, a noção espacial (utilizada nos versos anteriores) dá lugar à noção de mente e de memória, o cardume é “fabricado” “como, noutros tempos, / monstros ultramarinos.”. Estes versos possuem um ranço mítico, da poesia que não era escrita, da tradição oral, com a qual o poeta (de várias partes e tradições do mundo) contava sobre monstros no mar. A terceira frase (dos versos 8 ao 13) compõe uma imagem, e assim como no resto do poema, o conceito de cardume não é enunciado por essa palavra que o nomeia, mas por um pronome oblíquo, sempre objeto do verbo. Tal coletivo não pratica qualquer ação, ao contrário, é servo e anteparo (mesmo fazendo parte do próprio sujeito que o caça e o ingere), subjugado à ação de um sujeito, ainda indefinido.
Essa parece ser a imagem mais dissonante no poema. A localização (“entre duas cidades”) engendra, espacialmente, distância do mar, e casualidade, banalidade (“ônibus da Cometa”). Entretanto, cometas são raros e, quando atravessam o espaço, quando se tornam visíveis, causam espanto. Eles passam muito longe do mar, distantes da correnteza, longe de todos os entes dessa poesia. Avançando, notamos que, dentro da imagem, há, nos versos 11 e 12, a ligação entre sujeito, pela “linha presa ao dedo”, a algo não enunciado, que remete a pesca. Ambos versos tem ritmo igual (  _ _ ´_ _ _ ´ ), as palavras “linha” e “milhas” estão na mesma posição e cumprem o mesmo papel rítmico, ambas são antecedidas por um “a”, gerando uma harmonia imitativa do movimento do veículo com essa repetição rítmica. No verso seguinte, o andamento é quebrado: há “surpresa”. As assonâncias de /a/ e /u/ e a repetição das fricativas alveolares /s/ e /z/, além da mudança nos acentos tônicos e na métrica provocam sensação de mudança; o verso é: “acusa sua surpresa”. Dentro desses sentidos que “cometa” produz, o cardume, a poesia, e o próprio poeta são como que fisgados “mesmo a milhas de distância”.
Seguindo a ordem dos versos, a última frase se apresenta. Podemos dividi-la em duas partes, cada uma de quatro versos (do 14 ao 17 e do 18 ao 21), porque são duas ações, postas juntas com uma conjunção indicativa de simultaneidade (“enquanto”). A primeira parte é iniciada pela conjunção adversativa “mas”, contrapondo a imagem anterior à descrição seguinte: uma ressaca trazendo pedras para a praia. Por conta dessa dialética é que depreendemos que as pedras são metáforas para poemas que não vingam; eles até surgem, saem do mar, local representativo donde a poesia está, submersa; porém não são cardumes. Os últimos quatro versos trazem a ideia da Cordilheira – agora melhor circundada – mas ainda não decifrada. Não podemos precisar, sem analisar mais a fundo o livro todo, se a “Cordilheira” teria ligação com a serra do mar, ou com a Cordilheira dos Andes, apenas podemos observar que há constante perigo de esmagamento – de um esmagamento que não dá sinais. No verso 19, o eu lírico aparece, sob a forma da primeira pessoa do plural, e cria-se uma dialogia com o leitor, pois este está lendo -“comendo”- a mesma poesia que “já foi comida” (e incorporada), ou seja, surge uma espécie de simbiose entre escritor, poema e leitor.
As múltiplas visões donde surgem os poemas de Cais não são separadas temporal e espacialmente de forma delineada: o passado invade o presente; a ausência e a presença se fazem unas sob a memória e a realidade; leitor, escritor e poesia se tocam numa ingestão mútua. Assim, o poema “OUTRO CARDUME” se constrói, entre a caça da poesia e o constante perigo de tê-la, escrita.
           
REFERÊNCIAS

MARTINS, A. Cais. São Paulo: Ed. 34, 2002.
"DUAS Viagens ao Brasil" de Hans Staden (1557) Disponível em: www.bibvirt.futuro.usp.br
Borsato, Fabiane Renata. Memória e metalinguagem em cais, de Alberto Martins. Texto Poético, v. 9, p. 1-13, 2010. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/124945>.